O poder do autoquestionamento
- Krystal Castor
- 25 de mar. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 4 de dez. de 2020
Quantas atitudes tomamos que são automáticas? Eu diria que a maioria delas. São os nossos hábitos, que dia após dia vão escrevendo a história da nossa vida.
De fato, mudar um hábito não é tarefa fácil, isso porque nosso cérebro foi programado para poupar energia e preservar a vida, nos mantendo na zona de conforto onde aparentemente as coisas funcionam. É que partir para o desconhecido geralmente é amedrontador e aciona em nós um alerta de perigo para nossa sobrevivência, ainda que não tenhamos plena consciência disso.
Ocorre que nem tudo o que fazemos é realmente bom para nós e para o ambiente ao nosso redor e os demais seres vivos (humanos e não humanos), mas mesmo assim continuamos a fazer, justamente pela força que tem o hábito em nos manter na tal zona conhecida.
A meu ver, existe um caminho muito eficaz para sairmos desse lugar confortável aos poucos, deixando para trás aquilo que já não nos serve e abrindo espaço para atitudes mais conscientes e menos automáticas. Esse caminho é o do autoquestionamento, auto-observação, ou autocrítica. Nada é mais libertador que isso.
E por que fazer isso? Bom, só há mudanças verdadeiras em nossas vidas quando elas partem de dentro de nós, e se não nos conhecemos e não sabemos por que fazemos o que fazemos como mudar para melhor? Lembrando que não cabe aqui a mudança feita apenas para agradar alguém ou para se encaixar em algum perfil, ou por qualquer tipo de imposição externa, pois essa espécie de mudança gera dor, rancor e não resiste muito tempo.
Sendo assim, como podemos implementar o autoquestionamento para transformar nossos hábitos? É simples e poderoso, porém requer coragem de nos enfrentarmos com honestidade e de trabalhar pela mudança.
Quando desejamos sermos melhores devemos começar a observar nossas atitudes ao longo do dia, focar naquela ação que estamos tomando no momento, ainda que ela pareça inofensiva, e indagar: por que estou fazendo isso? É porque realmente quero e acredito no bem que tal ação traz? Alguém sai prejudicado com essa minha atitude, inclusive eu mesmo? Essa atitude vai de encontro com algum valor intrínseco? Eu realmente me sinto bem após agir de tal forma? Será que não faço isso apenas para agradar alguém ou para me encaixar na sociedade? Ou porque me ensinaram assim desde pequeno e não sei fazer diferente?
Existem diversas indagações a serem feitas em diversas ocasiões do dia. Desde uma atitude corriqueira como o tipo de alimento que se ingere, até algo maior, como o tipo de trabalho que executamos para o sustento.
Expondo um exemplo pessoal, sempre fui apaixonada pelos animais (todos) e pela natureza em geral, mas também sempre “amei” comer carne de todo tipo. Quando pré-adolescente comecei a notar em mim a contradição desses amores. Se eu amo, como posso pagar para matarem o objeto do meu amor? Parecia muito louco, mas naquela época eu me conformava com esse hábito, pois não tinha vontade suficiente para fazer uma auto-observação profunda, já que sabia que a partir do momento que eu a fizesse teria que mudar.
Foi só quando me tornei uma jovem adulta com 23 anos que resolvi assumir as consequências das minhas ações e passei a observar minhas atitudes com seriedade. Entendi que eu comia animais muito mais por ter sido criada desta forma e em um mundo onde prevalece esse hábito, do que de fato por “amar” carne. Até ri de mim quando me dei conta que sempre tive nojo de pegar em carne para cozinhar. Então como eu era capaz de comer algo que me causava nojo de certa forma? Só rindo mesmo. Aquilo não era amor, era um hábito e ruim, diga-se de passagem.
Dei o exemplo de comer carne, pois sou vegana, mas além desse tenho diversos outros exemplos de boas mudanças em minha vida que surgiram quando comecei a autocrítica (positiva) e que me tornaram uma pessoa mais gentil e sustentável.
É importante ressaltar, contudo, que nos observar e buscar a mudança positiva é algo que dura uma vida toda, já que acredito que estamos em um processo longo de evolução, errando para acertar, mudando de opinião, dançando com a impermanência que nos rodeia. Portanto, não nos cobremos a perfeição, e tenhamos consciência de que somos humanos, reconhecendo com humildade que falhamos e que certas mudanças levam tempo e esforço.
Quando mudamos por dentro o mundo muda por fora. Impactamos a vida das pessoas com nosso exemplo e nos sentimos bem ao reconhecer a nossa força e bondade, que são qualidades inerentes a TODO ser humano. Quando a revolução é interna ela inevitavelmente causa uma revolução externa. Cabe a nos escolher se essa revolução está a serviço do amor.

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