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Páscoa, Jesus e Veganismo

Atualizado: 4 de jul. de 2020

A Semana Santa é uma tradição bem conhecida da Igreja Católica que visa relembrar a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, e ela sugere a abstenção de carne vermelha e frango na sua Sexta-Feira Santa. Apesar de vir de uma família predominantemente católica, nunca entendi bem o motivo desta abstinência, até porque a carne de peixe era liberada nesta data e isso me parecia uma bela hipocrisia.


Ao pesquisar sobre o tema descobri que o motivo nada tem a ver com a compaixão aos animais, e sim com o fato de que antigamente a carne vermelha era consumida apenas em nobres banquetes, e acabou sendo associada ao pecado da gula. Como o peixe era insignificante em tais refeições, ele não foi incluído nesta simbologia.


Já que o foco da Páscoa não está na compaixão aos animais e sim em honrar Jesus Cristo, e sendo eu uma grande admiradora dele, apesar de não seguir nenhuma religião, vou tecer alguns comentários sobre como os ensinamentos de Jesus me ajudaram e me ajudam na minha jornada como vegana.


Independentemente de qualquer controvérsia religiosa e ideológica, acredito que o que realmente importa não é nem Jesus em si, mas sim os ensinamentos atribuídos à sua figura, como o amor, compaixão, perdão, resiliência, fé, não julgamento, gratidão, humildade, honestidade, igualdade etc.


Alguns dos ensinamentos que aprendi com Jesus é que 1) Deus (Vida, Natureza, Alá, Universo, Energia Criadora, Força Maior ou qualquer outro nome que faça sentido para você) habita dentro de nós e não em templos e igrejas, e que temos a capacidade de nos conectar diretamente com esse Deus sem precisar de qualquer intermediário; 2) somos seres essencialmente bons e capazes de fazer aflorar a compaixão que já existe dentro de nós; 3) não devemos julgar o próximo, pois somos todos imperfeitos e estamos nesta vida para evoluir.


Esses três aprendizados são muito valiosos para mim como vegana. O primeiro deles me ajudou a ter forças para ir contra todos que diziam que comer animais era o melhor dos mundos, como a minha família, amigos e os próprios médicos e nutricionistas. Eu me dei conta de que o amor e a compaixão que eu sentia em relação aos animais eram fortes ao ponto de me fazerem considerar parar de comê-los, e isso para mim era o próprio Deus falando diretamente comigo através destes sentimentos tão arrebatadores, era a minha verdade sagrada que independia de qualquer opinião externa.


E como não relacionar tudo isso ao segundo aprendizado, que diz sobre a compaixão que Jesus tanto pregava? Como amar uns e maltratar outros? Como amar o cachorro e comer a vaca? A compaixão verdadeira é algo inerente ao ser humano e ela não é seletiva. Não me parecia certo escolher quem entrava no meu coração e quem entrava no meu estômago, especialmente por saber que tal escolha era meramente cultural. Na China eles comem cães, na Índia a vaca é sagrada, no Brasil amamos cães e comemos vacas. Peraí! Se eu posso escolher amar e respeitar todos os animais, por que eu iria fazer diferente? Por que eu iria colocar um hábito advindo de uma cultura acima do que o meu coração me dizia?


Já em relação ao terceiro e último aprendizado mencionado (não julgamento) confesso que é o mais difícil para mim e acredito que para a maioria dos veganos. Neste aprendizado o foco não é nem os animais, mas sim as pessoas que não são veganas e que, portanto, contribuem ativamente para a perpetuação da escravidão animal.


Quando nos tornamos veganos é como se uma venda fosse tirada dos nossos olhos, como já disse o ativista Gary Yourofsky, e a partir desta nova visão de mundo nos sentimos muito mal porque finalmente enxergamos a nossa responsabilidade na matança e sofrimento desnecessários de tantos animais inocentes, na destruição do meio ambiente e na decadência da nossa própria saúde.


Em uma tentativa muito benevolente de fazer com que as pessoas também enxerguem esse cenário começamos a compartilhar com elas tudo que aprendemos sobre veganismo, tendo fé que isso vai ser o suficiente para virar a chave na cabeça e no coração delas.


Ocorre que nem todas as pessoas estão a fim de enxergar a sua própria responsabilidade em algo tão cruel e prejudicial. Elas dão mil e uma desculpas para continuarem na sua zona de conforto, e isso ocasionalmente gera muita revolta em um vegano, principalmente nos novatos (falo por experiência própria). Mas o que nós veganos não podemos esquecer é que, na maioria das vezes, a gente fez exatamente igual a essas pessoas antes da nossa própria chave virar.


E é aí que entra o não julgamento. Infelizmente nem todo mundo está preparado para mudar, nem todo mundo adquiriu essa consciência ou mesmo tem a força que se requer para mudar hábitos tão arraigados na nossa cultura e na nossa ancestralidade.


Compreenda que de forma alguma estou dizendo que devemos deixar as pessoas fazerem o que bem entendem com os animais e com o meio ambiente, ou que elas estejam certas e que não vamos lutar pela liberdade dos animais.


A mensagem que quero passar com esse ensinamento de Jesus é que devemos procurar agir como ele, sendo uma bússola que aponta a direção do amor, acolhendo a todos que nos buscam por orientação, espalhando a palavra que planta a semente dissipadora da ignorância (rindo com meu vocabulário evangelizador!). Portanto, sejamos amorosos e pacientes, e que haja paciência!

 
 
 

1 Comment


hannalamar
Apr 14, 2020

Adorei o post e como você relacionou o veganismo com a Páscoa que celebra a ressureição, o renacimento, e porque não celebrar também o nosso poder de nos reinventar, sempre em busca do amor e da justiça para todos os seres que dividem esse dádiva de lar, que é o planeta terra, nossa Mãe Terra, nossa Pachamama! Love you :)

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