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Resenha completa sobre o documentário Seaspiracy (tem bastante spoiler!)

Documentários são uma das melhores maneiras de aprender sobre os principais pilares do veganismo: animais, meio ambiente e saúde.


Aliás, conheço diversas pessoas, incluindo minha mãe, cuja chave finalmente virou durante um documentário (no caso dela foi o What the Health, que fala sobre saúde).


O documentário Seaspiracy: mar vermelho, que estreou na Netflix neste 24/03/2021, é uma peça que estava faltando na coletânea de documentários que abordam questões ligadas ao veganismo.


Do mesmo produtor do documentário Cowspiracy, que fala de questões ambientais relacionadas à pecuária, Seaspiracy trata da mesma questão, só que com o foco na pesca.


Esse assunto é de extrema importância, pois muitas pessoas têm facilidade em compreender os impactos da carne vermelha no meio ambiente, na saúde e também em termos de crueldade animal, e por isso conseguem abandonar o seu consumo.


No entanto, acabam mantendo a ingestão de peixes e outros animais marinhos, justamente porque não compreendem que este tipo de consumo também causa grandes problemas.


E é aí que Seaspiracy entra. Com duração de 1:29h, ele aborda diversos aspectos da exploração da vida marinha pelos seres humanos, e já posso adiantar que achei esse documentário maravilhoso!


Plásticos nos oceanos


A trama se inicia levantando a questão dos plásticos que acabam parando nos oceanos, e que não só poluem as águas como também matam diversos animais que ingerem esses plásticos por engano.


Em dado momento, o personagem principal Ali descobre que os plásticos não são a maior ameaça ao ecossistema marinho e nem mesmo o derramamento de óleo. A pesca, principalmente à nível industrial, é que é atividade mais preocupante, pois mata aos trilhões anuais todo tipo de vida marinha, seja propositalmente ou “acidentalmente”.


É mostrado, inclusive, que as próprias redes e demais aparatos de pesca são a maior parte do lixo plástico presente no mar, e tiram a vida de diversos animais mesmo após o seu descarte, justamente porque foram projetadas para matar.


A questão do banimento do canudo de plástico é tida inclusive como uma medida pouco eficaz quando comparada ao estrago que a pesca causa na vida marinha. Como dizem no documentário, querer salvar os mares apenas parando de usar canudo plástico é como querer salvar a Amazônia boicotando somente palitos de dente.


Massacre e sequestro de golfinhos


Com a percepção dos danos causados pela pesca, diversos pontos são levantados no documentário, como a caça de baleias e golfinhos no Japão e de tubarões na Ásia como um todo. São citados os massacres anuais que ocorrem em Taiji e nas Ilhas Faroé, ambos desconhecidos pela maioria das pessoas.


Fica muito claro no documentário que o massacre e rapto de golfinhos em Taiji, no Japão, funciona dentro de um esquema mafioso, onde o governo nacional e local, junto com pescadores e mergulhadores, agem em conluio para que ninguém se intrometa. Afinal, eles ganham muito dinheiro com essa crueldade.


É que os golfinhos que são sequestrados dos mares por essa máfia são vendidos por preços altíssimos aos parques “de diversão” tipo o Sea World, alimentando uma indústria bilionária.


Nesses parques que eu chamo “de horrores” e não “de diversões”, os pobres animais são forçados a viver o resto de suas vidas em pequenos tanques, dando voltas em círculos, ondem aprendem malabarismos para “entreter” adultos e crianças ignorantes. É uma tristeza!


Os golfinhos de Taiji que não são escolhidos para serem escravos dos parques de horrores acabam sendo assassinados para servirem de “bode expiatório” da indústria da pesca industrial.


Eles fingem matar esses golfinhos para fins de “controle de praga”, os culpando pela redução do número de peixes nos mares, que na verdade é culpa da própria indústria da pesca. Ela sim é a verdadeira depredadora da vida marinha. Só que ninguém pode desconfiar disso, e por isso os golfinhos acabam pagam com suas vidas!


Para termos uma noção, a pesca de atuns bluefin, que gera lucros multimilionários, está dizimando essa espécie – e outras –, restando apenas 3% desse animal nos oceanos. Infelizmente a ganância humana destrói tudo o que vê pela frente, e transforma animais em meros bens de consumo.


Massacre de golfinhos em Taiji. Crédito: DolphinProject.com

Chacina de tubarões e baleias


Outros animais que sofrem muito além dos golfinhos e peixes são os tubarões. Na Ásia existe um prato considerado iguaria, a sopa de barbatana de tubarão, que é muito mais um símbolo de status do que qualquer outra coisa.


Para tanto, diversos tubarões são capturados e têm suas barbatanas decepadas. Alguns são devolvidos mutilados ainda vivos ao mar, para morrerem lentamente enquanto se afogam em água por não conseguirem mais nadar. É extremamente cruel!


Outra barbaridade mostrada é a execução de baleias piloto nas Ilhas Faroé, na Dinamarca, chamada de Grind. Esse massacre é feito em continuidade a uma tradição nórdica antiga de matança de baleias, com o uso da carne para a alimentação da população local.


Ainda que um dos objetivos desse ritual seja alimentação, ele continua sendo praticado muito mais por tradição, já que a carne de baleia não é necessária para a sobrevivência naquele lugar.


Ainda em pleno 2021 o ser humano insiste em manter práticas cruéis contra outros seres, seja por ganância, tradição e cultura, ou por pura conveniência, já que não há real necessidade para tanto.


Cada barbatana um tubarão morto. Crédito: AP Photo/Kin Cheung.

Bluewashing e capturas “acidentais”


Outro ponto muito interessante trazido em Seaspiracy é a questão do bluewashing, que é uma tática de marketing para que empresas continuem lucrando em cima da depredação dos oceanos, só que com cara “sustentável”.


Um exemplo usado foi o do selo dolphin safe (seguro para golfinhos) em produtos tipo atum enlatado. Esse selo vende a ideia de que na pesca daquele atum nenhum golfinho foi morto.


Tenta-se vender essa ideia porque a rede que pesca o peixe é a mesma que “acidentalmente” mata diversos outros tipos de vida marinha, como golfinhos, tubarões, arraias, tartarugas, baleias e até aves que estejam pairando por ali, na tentativa de comer o peixe que a rede leva para a superfície.


São as chamadas “capturas acidentais”, que pescam animais que não são seu alvo comercial, e os descartam de volta ao mar, muitos já mortos ou extremamente debilitados, e como consequência são responsáveis pela morte de trilhões de animais marinhos por ano!


Portanto, devemos entender que ao comermos peixe, também estamos sentenciando à morte diversos outros animais através da “captura acidental”.


E não adianta comprar produtos com esses selos que promovem a pesca “sustentável”, pois eles não são capazes de assegurar o que prometem. Aliás, eles só existem como estratégia de marketing para que essas empresas faturarem muito mais, lucrando em cima do nicho de mercado de consumidores mais “conscientes”.


Esse mercado “consciente” é tão lucrativo que as empresas destruidoras da natureza criam, se associam e patrocinam ONGs que teoricamente promovem sustentabilidade, para que assim consigam manipular o consumidor.


A infeliz realidade é que muitas pessoas, empresas e ONGs não estão interessadas de fato em acabar com os problemas do mundo, mas sim em explorar os problemas do mundo, tornando-os um negócio, uma forma de fazer mais dinheiro.


Nem mesmo os governos estão verdadeiramente interessados, porque eles também faturam muito com isso. Inclusive, usam o dinheiro dos nossos impostos para fornecer subsídios a essas indústrias, possibilitando que elas artificialmente reduzam o preço da carne animal.


O valor dos subsídios é tão alto que poderia acabar com a fome mundial! No entanto, a miséria humana e animal, junto com a destruição da natureza, dá muito mais lucro a quem já é extremamente rico e está no poder.


Mão de obra escrava


Falando em miséria humana, o documentário aborda outra questão de extrema importância: a exploração de mão de obra escrava na pesca. A indústria pesqueira é extremamente corrupta, assim como toda indústria de exploração animal.


Pessoas são sequestradas para trabalharem durante anos embarcadas, sendo vigiadas 24h, sem poder ver ou falar com suas famílias. Muitas ficam deprimidas, sofrem abuso físico e psicológico e até tentam se matar. Isso quando não são assassinadas em alto mar e têm seus corpos jogados no meio do caminho.


A indústria da pesca muitas vezes está articulada não só com o tráfico de pessoas como com o narcotráfico e outras formas de crime organizado. Inclusive, os envolvidos na produção do documentário sofreram diversas intimidações. Além disso, diversos “observadores” do mar, que são pessoas que protegem os oceanos e denunciam práticas ilegais, já foram assassinados ao longo dos anos.


Piratas da Somália


O documentário também aborda a questão dos piratas da Somália, que são grupos de pessoas que invadem embarcações para roubar. Descobriu-se que se trata de antigos pescadores locais que, por conta da pesca industrial, tiveram seu meio de subsistência drasticamente impactado.


Isso porque barcos pesqueiros provenientes de outros países começaram a se apropriar da fauna marinha africana, deixando muito pouco peixe para alimentar as aldeias costeiras, que passaram a enfrentar a fome.


Para piorar, a escassez de peixes afetou também as populações africanas interioranas, que começaram a caçar animais terrestres selvagens para matar a fome, e assim contraíram o ebola.


É impressionante como tudo está conectado!


Pesca de arrasto


Esses navios de pesca são avassaladores, verdadeiras máquinas mortíferas, matadouros flutuantes, muitos com tecnologia que arrasta redes gigantescas no fundo do mar (pesca de arrasto), coletando absolutamente toda diversidade de vida marinha, machucando o solo do oceano e deixando-o completamente estéril.


Seus impactos na natureza e na qualidade de vida humana são tão grandes, que previsões indicam que até 2048, ou seja, daqui a apenas 27 anos, nossos oceanos estarão vazios.


Assustador!


Psicultura


Toda essa informação pode nos fazer pensar que a solução possa ser então a psicultura, ou seja, as fazendas de peixe (fish farming), mas não é.


Nessas fazendas os animais marinhos são presos em gaiolas e tudo que lhes resta até o dia do abate é ficar nadando em círculos, se alimentando de forma artificial, com ração que, inclusive, é feita de peixe oriundo da pesca industrial. Logo, continua-se perpetuando esse tipo de atividade.


E por conta dessa artificialidade os peixes acabam contraindo diversas doenças parasitárias, como infestação de piolhos do mar, entre outras doenças como anemia, infecções e doenças do coração, sem falar na enorme produção de lixo, pois muitos animais morrem doentes e são descartados. Ademais, a psicultura dizima muitos manguezais, principalmente para o cultivo de camarão, sem considerar que os manguezais são essenciais no equilíbrio da natureza.


Um ponto curioso sobre a artificialidade da psicultura é que o salmão criado em cativeiro só tem aquela cor avermelhada devido a um corante que compõe a ração que os alimenta. Basta lermos as embalagens de salmão para constatar isso.


Leis de proteção dos oceanos


Se a solução não é a psicultura, então será que precisamos de leis melhores para a proteção dos oceanos? A resposta também é não. Nos enganamos ao acreditar que leis ambientais, tratados internacionais, selos e tudo mais protegem de fato o ecossistema marinho.


Mesmo a lei mais protetiva que existe não consegue ser fiscalizada, o que leva a termos menos de 1% de todo oceano protegido da ganância humana.


A pesca “sustentável” é impossível na prática, pois não há maneira de se fiscalizar com eficiência. E mesmo havendo fiscais da lei, muitos deles ou fazem parte da rede corrupta da pesca, ou são mortos por ela, como mencionado mais acima.


Peixes sentem dor


Já chegando mais para o final do documentário, a questão sobre os peixes sentirem dor é abordada de forma breve, sendo citado que eles possuem sistema nervoso, capaz de sentir dor e de captar os menores sinais de mudanças na água. Também se falou de um estudo que aponta que peixes sentem medo, têm vida social e trabalham em cooperação, inclusive com outras espécies.


Não precisamos comer peixe para saúde


Sobre a necessidade ou não de se comer peixe para fins de saúde, o documentário também fala brevemente. A resposta é que não precisamos, e que inclusive são encontrados nos peixes grandes níveis de mercúrio, que nos causa diversos danos. No caso de peixes criados em cativeiro também existe o problema da contaminação por antibióticos.


E ao contrário do que muitos pensam, os peixes não produzem ômega 3. Eles o obtêm através do consumo das algas, e, portanto, seres humanos podem obter esse nutriente diretamente desta fonte (ou de outras como linhaça, chia, nozes).


Estamos todos conectados


A conclusão que tive ao assistir Seaspiracy é que somos todos parte de um ecossistema muito bem integrado, e que ao desequilibrar uma determinada parte dessa teia invisível, muitas outras partes são gravemente afetadas.


O ser humano vem travando uma verdadeira guerra contra os oceanos, matando os animais que ali vivem, sem saber ou sem se importar com o fato de que matando os animais marinhos o oceano eventualmente morrerá, e se o oceano morre, a vida em terra firme também morre.


Gostei muito de uma analogia feita durante o documentário que diz que o planeta Terra é como uma nave espacial viajando pelo cosmos, e nós, os terráqueos, somos sua tripulação. Se matamos parte dessa tripulação (os animais), a nave não consegue se manter e todos os demais tripulantes (humanos) vão acabar morrendo também.


Além do fato de que matar animais nos prejudica, também não se pode ignorar a própria crueldade animal perpetrada pelo ser humano através da pesca, sendo que o abuso do direito dos animais também implica em abuso do direito humano e do direito da natureza em geral.


A luta deve ser para que todo tipo de opressão seja extinta.


Como ajudar


Depois de assistir Seaspiracy não tem como continuar defendendo o consumo de peixes (exceto em situações de sobrevivência).


A pesca industrial é um problema ambiental, social e ético. Logo, como o próprio documentário sugere, a coisa certa a se fazer é reduzir e parar o consumo de animais marinhos (e de todo os outros animais, claro).


Além disso, devemos boicotar todos os aquários e parques com animais, como Sea World.


Reduzir e eliminar do uso de plástico também é de grande importância.


Assinar petições também pode ajudar a pressionar governos (assine esta aqui se você possui cidadania europeia).


No mais, podemos doar para ONGs sérias como Sea Shepard e The Dolphin Project, falar sobre o assunto com nossos conhecidos e indicar este documentário para o maior número de pessoas.


Não deixe de assistir Seaspiracy para tirar suas próprias conclusões!

 
 
 

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